Como uma reverberação, as revoluções circulam neste espetáculo feito de camadas de memórias e de evocações artísticas e sociais. Revoluções da dança, da música, sociais e políticas vão despontando ao longo do espetáculo não aprisionadas numa cronologia histórica, mas em livres cruzamentos e justaposições temporais e temáticos. Alguns movimentos de vanguarda ou de gestos icónicos são convocados neste espetáculo, composto numa longa sequência como uma espécie de imagem cinemática onde corpo é protagonista, afinal motor de todas as revoluções como nos lembra os Comité Invisible. Neste andamento de evocações de mudança íntima e coletiva, o trabalho evolui de uma utopia (corpos movem-se em direção ao lugar onde tudo é possível, o placo) ao trauma (o retorno ao corpo através da nudez), que caracteriza muitas vezes o pré o pós-revolução.
Num ano em que se comemoram 50 anos do maio de 68, parece oportuno o momento para pensar sobre esta e outras revoluções. Interessa-nos essa manifestação popular que se tornou étnica, cultural, geracional e social, de barreiras sociais, mas sobretudo o que leva às revoluções o que as faz mover. O que é uma revolução? Quais as revoluções pelas quais estamos à espera?
Na sua escalada, se as revoluções produzem um efeito de expansão que pode ter proporções gigantescas, também podem também tratar-se de mudanças profundas e intimas, mudanças invisíveis, podem produzir desilusões ou traumas, podem ser aberturas como fechamentos, podem ir da utopia às distopias. Efetivamente, como nota Debord pode-se dizer da revolução a mesma coisa que Jomini terá dito sobre a guerra, ou seja, que “não é uma ciência positiva e dogmática, mas uma arte sobreposta a alguns princípios gerais e, ainda mais, um drama apaixonado”. Com o seu modo particularmente lúcido, Debord também se questiona sobre quais são as nossas paixões e aonde nos conduziram. Como uma farpa, diz que para ele não existe nem retorno nem reconciliação e que “A sabedoria jamais chegará.”
Mais ou menos radical, enquanto movimento de mudança as revoluções são atos que fraturam e rompem de forma que já nada será como dantes. As artes estão recheadas de desejos e de ações de mudança de curso, de desvios e de imprevisibilidades que, neste projeto, funcionam também como meta-discursos. As nossas Revoluções procedem pela coexistência de diversas camadas, de acumulações ou de citações, mas também guiadas por enigmas por impulsos e incertezas. Segundo Marcuse, a Arte é revolucionária, mas não no sentido de uma arte de propaganda ou de relação direta com uma realidade social ou politica. A arte é revolucionária porque transporta verdades trans-históricas e nesta autonomia com as relações sociais, a arte rompe com consciência dominante e revoluciona a experiência.
Para este projeto, de cruzamento disciplinar entre coreografia, instalação, imagem e música, a dramaturgia não se programou como um drama apaixonado, mas como um dispositivo de distância que nos permita viver as revoluções nas suas multiplicidades históricas e imaginárias.
Né Barros
Folha de sala
Imagem: © Pedro Figueiredo
Ficha técnica
Direcção e Coreografia Né Barros
Instalação sonora e Música Haarvöl
Música Digitópia, Casa da Música, com temas originais e execução de obras de Parmegiani (Pop Ecletic), Stockhausen (Studie II), Cage (Sonatas 1,2,3,5 para piano preparado) e Reich (Pendulum).
Direcção Musical José Alberto Gomes
Piano Duarte Cardoso
Desenho de Luz José Álvaro Correia
Intérpretes Deeogo Oliveira, Elisabete Magalhães, Francesca Perrucci, José Meireles, Júlio Cerdeira, Sónia Cunha
Figurinos Né Barros e Manuel Casimiro
Produção Lucinda Gomes
Coprodução Rivoli Teatro Municipal, Balleteatro
O espetáculo insere-se no programa de atividades de investigação do Grupo de Estética, Política e Conhecimento do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto.
Apoio à residência artística 23 Milhas (Ílhavo)
Itinerância:
Ílhavo 23 de Novembro 2018, 23 Milhas
Coimbra 18 de Abril 2019, Convento São Francisco
Organização:
Eugénia Vilela | Né Barros
Research Group Aesthetics, Politics and Knowledge
Instituto de Filosofia da Universidade do Porto - FIL/00502
Balleteatro
Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)